BOLICHE: MEMÓRIAS DE UM JOGADOR BRASILEIRO (1)

decio_memorias_logo_moldura2(Parte 1) — Gostaria de deixar claro que o que vou escrever são memórias, algumas de fatos ocorridos há mais de 40 anos, portanto me perdoem se esquecer algo ou de alguém, ou mesmo se algum esquecimento fizer injustiça a alguém. Também quero esclarecer que é um relato que evidentemente não pode cobrir tudo o que aconteceu. Tentarei ser o mais fidedigno possível.

Comecei com o boliche em final de 71, no “Meu Boliche”. Não era meu, era o nome da casa. Na época, um dos garçons, Chico, e o Nelson, dono do Restaurante Pé de Vento, desafiaram a mim e ao meu companheiro das quartas-feiras, Ricardo, para um desafio, valendo uma merreca. Fomos gostando da brincadeira, até que, no final do ano, um velhinho, Sr. Mack, convidou-me para fazer parte da Equipe Pan Am na Liga Americana. Aceitei e joguei os dois últimos meses do torneio de 71.

Passei a saber que os americanos que trabalhavam no consulado (antiga embaixada) tinham uma liga agora enxertada de brasileiros. Os torneios eram de quintetos, com handicap, equipes contra equipes em confronto direto, três linhas por noite. No início, a liga ocupava as 8 pistas às segundas e terças-feiras. Soube também que tinha existido uma federação, muita gente jogando sem handicap, que desapareceu, só restava a Liga dos Americanos com handicap.

CARCARAWebTinha a equipe do Brasas, com o O’D, Goodman, todos muito divertidos. Conheci o maior jogador da época, o Toninho Carvalho, prova que treinar dá sorte. Como o velhão era aplicado! Além do talento, mental game de primeira. Admirei o Fernandão, alto, mas que possuía o estilo mais bonito, com muito alongamento. O Dr .Ivan Cardoso, que parava com o pé direito, mas afiado. A turma do Carcará, Felipe e Guido, e entre as mulheres a Marília, a Milena, a Mary, a Dirce e a Tininha se destacavam.

Comprei minha primeira bola (usada, claro) de borracha, já furada, polegar enorme, e bola nos pinos. Os americanos que voltavam para os EUA vendiam suas bolas, era o mercado da época. Como obtive bons resultados, o Paulo Carvalho e a Milena me convidaram para fazer parte da equipe deles, os Uirapurus. Já me colocaram para fechar a equipe, e em 72 já me classifiquei bem no all events, o que me cativou. E era difícil, o torneio durava de março a novembro, três linhas por semana.

Em 73 formamos a equipe Casa do Livro, com Milena, Paulo, Duda, Fernando Cysneiros, BrasilMarília e eu, e fomos bicampeões em 73 e 74. Sim, tinha reservas que revezavam, quem jogasse mal saía e entrava outro. Fiquei em 2.º lugar no all events nos dois anos, era duro bater o “velho” Toninho. Vejam como as coisas mudaram, o “velho”, apelido do Toninho, tinha 44 anos… Eu estava definitivamente fisgado.

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No início de 74, o saudoso Rogério Colonna comentou comigo e com a Milena se gostaríamos de participar do Torneio das Américas, ele sempre recebia convite do Lee Evans. O Paulo se encarregou de formar uma delegação e começou convidando pela classificação do evento de 73, pois nós não tínhamos federação, diretor técnico ou coisa parecida. Ainda assim, foi respeitada a ordem pelo resultado na pista. Nesta primeira viagem, o Toninho não quis ir, acabou chegando no Fernando Cysneiros, e nenhuma outra mulher quis ir. Lá fomos nós os aventureiros, Milena, Fernando e eu, Paulo como delegado.

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Choque geral!!! Lá encontramos um torneio organizado, super formal. O hotel era grátis para os participantes, e os acompanhantes (esposas, filhos, etc) pagavam dois dólares por dia. Refeições, camisas, pistas, bebidas nas festas (todo dia tinha uma), tudo grátis. Tinha ainda um fotógrafo profissional que tirava fotos durante a semana sem que nós percebêssemos, e dois meses depois chegava um álbum pelo correio. Sensacional!!! O Cloverleaf com 50 pistas automáticas, um sonho.

Mas o choque mesmo foi ver os gringos e cucarachas jogando. Que atrasados éramos! Todos com bolas fingertip, giro, estilo, e nós, pau nos pinos, bolas todas furadas erradas, etc. As bolas mais modernas eram de borracha, nem tinha de poliéster ainda. Cada um furou uma bola no Bob White, começava uma mudança no boliche brasileiro. Tivemos consciência que era possível melhorar, e muito. Neste torneio, conheci os hermanos, muito simpáticos, e fizemos amizade.

Em 74, de volta ao Rio, depois do jogo, fui a um barzinho, o Zepelin, e lá estava o Walter Costa. Ele me disse, como eu já havia ouvido várias vezes, que já tinha sido campeão de boliche. Eu zoei, disse que com ele já conhecia 500 campeões de boliche, pois todo mundo dizia isto, e ele resolveu voltar a jogar porque ficou mordido. Ele mesmo já comentou no Jornal do Boliche (que passarei a chamar de JB) sobre isto.

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Em 75, os melhores colocados de 74 aceitaram ir. Fomos Toninho, Milena, Tininha e eu. Furamos novas bolas, ainda de borracha. O Toninho furou uma de semi-finger e se adaptou bem. Novamente a viagem serviu para aprendizado e estreitar relacionamentos, continuávamos sendo motivo até de zoação por parte de todos, inclusive dos equatorianos, peruanos e outros menos votados.

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Paralelamente, o Veiga e Toninho, patriarcas de São Paulo e do Rio, combinaram os primeiros Rio-São Paulo. A seleção paulista tinha craques como Kim (pai do Caco), Veiga, Charles Simões, Rochinha, Freire, Hikari. Pelo Rio jogavam o Toninho, Décio, Walter, Almir, Felipe e Guido. O primeiro evento foi no Rio, nós vencemos, e no mês seguinte foi no Gran Boliche, em São Paulo, e os paulistas levaram a melhor. Vejam, viajávamos para jogar 6 linhas, 3 no sábado e 3 no domingo. E era ótimo, jogo somente de equipes. Caco era um menino. Eu mesmo tinha 23 anos, Walter 22, Almir 25, vejam a diferença em relação a hoje.

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Esta amizade que fizemos com os argentinos rendeu um torneio Brasil-Argentina em janeiro de 76. Meu grande amigo Mac Laprida e o Chunny St Bonnet nos convidaram para ir a Buenos Aires, onde poderíamos aprender um pouco e furar bolas com o Ybanhez. Fomos o WC, Kim, Edmundo, Freire, Hikari, Bergallo, Bernardo Brasil e eu.

Todos furaram suas bolas, eu resolvi furar uma de finger tip, e me dei bem, me adaptei super fácil, ninguém mais se aventurou. Foi ótimo para todos os que foram, e para o boliche brasileiro, como veremos a seguir.

Em 76, novamente os quatro classificados pelos resultados de 75 foram os mesmos. Em Miami, os argentinos nos convidaram para participar do 1.º Campeonato Sul Americano, que seria realizado em Buenos Aires em outubro ou novembro. Ponderamos, Paulo e eu, que não tínhamos confederação, não poderíamos participar de um evento oficial sem as devidas formalidades. (o T of A era, na época, um evento não oficial, apesar das dimensões e importância) Ainda assim, por causa do relacionamento, eles nos aceitaram e fomos. Paulo e eu organizamos a delegação, reservas de hotéis, passagens. Não era fácil naquela época, sem fax, DDI ou E-mail.

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O Rio-São Paulo ficou como evento anual, ida e volta, e os times da primeira divisão se repetiam, foram acrescentadas as divisões feminina e a segunda equipe masculina.

Em 76, joguei o campeonato de equipes de São Paulo, às 5.ªs feiras (no Rio era 2.ª e 3.ª), pois trabalhei em SP meia semana, de 4.ª à 6.ª, neste ano. Joguei no Cat Clube, junto com o Hikari. Ele e o Veiga eram os melhores de SP, mas neste ano o japonês barbarizou, venceu fácil o all events e carregou a equipe ao título. O Gran Boliche na Avenida Santo Amaro, com pin boys, tinha 20 pistas.

Voltando ao Sul Americano de 76, acabei como chefe da delegação. Novamente seguimos a lista do all events do RJ para formar a seleção, e fomos Ana Lygia, Vera Leal, Milena Carvalho, Helena Cacciola, Tininha Muelas e Maria Ilma Guerra pelas mulheres, e Walter Costa, Felipe Viana, Fernando Cysneiros, Almir Vasconcellos, Paulo Carvalho e Décio Abreu para a aventura.

Continuo no 2.º capítulo…

PARA VER O ÁLBUM COMPLETO DAS FOTOS CLIQUE AQUI

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Décio Abreu, 60 anos, é economista, empresário, casado com Helena, pai do Guilherme, Daniel e Bernardo. Atualmente reside em Belo Horizonte, Minas Gerais.

No boliche já foi campeão carioca de equipes, clubes e individual, paulista de clubes, mineiro de clubes, duplas, tercetos e individual, brasileiro de tercetos, seleções, all events individual, sul americano. Conquistou várias medalhas regionais, nacionais e internacionais, detentor de 22 recordes brasileiros e 3 sul americanos (individuais e coletivos).

Foi Presidente do World Bowling Writers de 83 a 87, editor do Jornal do Boliche de 83 a 92, administrador do Boliche del Rey, Presidente da Federação Mineira de Boliche, cofundador pelo Brasil da Confederação Sul Americana de Boliche.

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15 Respostas para “BOLICHE: MEMÓRIAS DE UM JOGADOR BRASILEIRO (1)

  1. Parabéns pela formatação, Bira, ficou excelente, legendas nas fotos, acho que muitos vão se divertir e relembrar bons tempos e ótimas amizades. Não precisa repetir minha idade, sou super senior assumido… rsrsrs
    Obrigado.

  2. Parabéns Décio Abreu… muito bom…1abrazo

  3. Parabéns ao Décio, pela brilhante iniciativa e ao Bira pela formatação – soube agora – e pela publicação.
    Vou colecionar os relatos e vou fazer, paralelamente, um relato dos anos jurássico e pré jurassicos.
    Abraços e parabéns, reiterados.

  4. Luiz Couteiro

    Linda história… e assim tudo começou… Parabéns!

  5. Adorei as memórias do Décio e a formatação feita pelo Bira.
    Bem escrito e bem montado, a leitura flui pacificamente, e gostosamente,
    pelos relatos interessantíssimos do Décio,
    Parabéns pela iniciativa e ficamos aguardando os próximos capítulos.
    Abração.

  6. Chico Bonacina

    Parabéns pelo arquivo, muito legal.
    Recordar isso serve de exemplo para nós.

  7. Yesssssssssssssssssssss
    Muito bom…
    Não para!!!

  8. Jorge Carlos Correa Choairy (Peninha)

    Gostei muito das calças boca-larga. E os cabelos? KKKKKKKKKKK
    Brincadeiras à parte, quero agradecer ao Décio (um amigo) e ao Bira,
    que sempre se empenham em dar continuidade ao esporte BOLICHE.
    PARABÉNS!!!

  9. Lindo amor! Sou muito orgulhosa de você!
    Que Deus te dê ainda muitas alegrias no boliche!
    Bjs Helena

  10. Décio, sem palavras, fantástico!
    Fico emocionado só de pensar em meus velhos e meus tios
    jogando na época e formando uma paixão familiar
    que hoje eu faço questão de conduzir.
    Esperarei outros relatos.
    Abraço!

  11. Obrigado a todos. Bitoca, realmente seus avos (na nova ortografia nem sei se está certo) foram pessoas que marcaram pela amizade, educação e pela família unida. Certamente foram um dos pontos principais para que o boliche me cativasse. Mês que vem tem mais. Esta viagem no tempo, aliás, foi ótima, me sinto revigorado. abs

  12. Francisco Rocabado Ferreira

    PRIMERO QUE NADA UN SALUDO DE ALGUIEN QUE SE AFICIONO A LA PRACTICA DEL BOWLING EN EL 80.
    SOMOS CONSIENTES QUE NO LO VOLVEREMOS A DEJAR COMO COLECCIONISTA DE RECORD RESULTADOS
    E HISTORIAS ANECDOTAS EN LOS DIFERENTES EVENTOS QUE ESTUVE.
    RECORDAMOS EN ARGENTINA HACE UN AÑO ATRAS CON LOS HEMANOS
    ANDO TODAVIA ALGUNOS DE ELLOS ACTIVOS Y EL MAYOR CAMPEON SUDAMERICANO EN VENEZUELA
    RAZONES PORQUE NUESTRO DEPORTE NO HABIA EVOLUCIONADO
    EL PRIMER TORNEO GRANDE QUE ESTUVE FUE EL AMERICANO MAYORES EN BOGOTA AÑO 85
    DONDE HABIA 5 CAMPEONES MUNDIALES Y DE TODOS ESTABA JACK JUREC HOY EN LA P.B.A
    A QUIEN LE COMPRE MI PRIMER BOLA DE URETANO
    Y DE BRASIL RECUERDO EN EL MASTER A WALTER COSTA
    Y A UNO QUE ANDABA POR TODOS LADOS CON SU GUITARRA ENTNANDO CANCIONES DE AHI
    ERA USTED AGRADESERLE LA REMEMBRANSA Y LAS HISTORIAS FOTOS
    LO COLOCAMOS DESDE EL PRIMER DIA EN MIS ALBUNES DE ARCHIVO
    ATTE.
    FRANCISCO ROCABADO FERREIRA
    Email.frbowling@hotmail.com

  13. Helio de Freitas

    Parabéns pela história, Décio. Estou aguardando o segundo capítulo. Abraço.

  14. Aos que se interessarem, o Sr Mack, do Pé de Vento, era meu avô. Sou Eduardo Mack, do Rio de Janeiro. Meu avô era americano e veio para o Brasil em 1930. Foi um dos fundadores do boliche de São Conrado.

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