Pra que servem olhos verdes em gente feia?

marty_feldman3Novamente algumas palavras sobre o rumo do esporte boliche no Brasil.

Neste domingo, dia 23,  terminou o mais importante evento brasileiro de seleções de boliche.  Foram três campeonatos simultâneos, o Brasileiro de Seleções, a Taça Brasil de Seleções e a de Tercetos, realizados em duas sedes, o Boliche Social Clube do Barra Shopping e o do Norte Shopping.

O tradicional Campeonato Brasileiro de Seleções festejou sua 34.ª edição com a participação de atletas de oito Estados, 48 homens e 42 mulheres. A Taça Brasil de Seleções teve 30 participantes e a Taça Brasil de Tercetos teve 36 inscritos.

O expressivo número de participantes (156) comprova que o esporte boliche no Brasil pode estar atravessando uma fase difícil, porém ainda tem um grande potencial a ser explorado.

O congraçamento entre os jogadores, mesmo com as disputas acirradas, foi o principal destaque positivo do evento, assim como a possibilidade de os premiados com Ouro, Prata e Bronze, poderem solicitar bolsa-atleta no próximo ano junto ao Ministério do Esporte.

No entanto ainda persistem algumas falhas graves na organização. Os resultados só começaram a ser divulgados a partir do segundo dia de disputas, e mesmo assim parcialmente. Até a tarde desta segunda-feira os resultados finais de algumas fases e Taças são desconhecidos do público. Também não houve divulgação na mídia esportiva e nos shoppings que sediaram os campeonatos.

LABORATÓRIO OU VITRINE?

No meu entender, a visão dos organizadores ainda é erroneamente voltada ao “laboratório” do esporte. O que se viu foi uma preocupação inócua com o sorteio do condicionamento das pistas, às vésperas do evento, até mesmo com a proibição de treinarem com antecedência nos patterns sorteados. Talvez menos de meia dúzia dos 156 inscritos teria condições técnicas de ter alguma vantagem com o conhecimento e treinamento prévio do óleo escolhido. Uma atitude ilógica, portanto.

Nem vou me estender sobre o fato que o programa acionado na máquina não é automaticamente aplicado nas pistas, visto que isso depende de análises técnicas durante o condicionamento, com equipamento e pessoal treinado. Curiosos e técnicos formados no Google ou em rodinhas regadas à bebida, mesmo que sejam engenheiros, não têm qualificação para tanto.

Apenas um atleta dos 156 conseguiu média superior a 200 pontos, Marcelo Suartz com 204,38. É o que basta para comprovar uma tese que defendo há muito anos: campeonatos e torneios são “vitrines” para os atletas mostrarem os resultados dos treinamentos, e não o contrário.

É uma bobagem sem tamanho justificar variações e dificuldades no condicionamento das pistas como preparação para disputas internacionais, muito menos alegar que essas ações empíricas sejam aprimoramento técnico. Nunca foi, não é, e duvido que seja.

O bom jogador de boliche é resultado de treinamento intensivo, metódico, acompanhado por instrutor e com registro das atividades do atleta, para análise posterior e correções ou mudanças necessárias. Vale lembrar que jogar bola na pista para derrubar pinos, junto com amigos, NÃO é treinamento. Nunca foi e duvido que seja, também.

Se imaginarmos que eventos nacionais desse porte são a “vitrine” do esporte boliche é um contrassenso colocar à mostra o pior que temos a oferecer, ou seja, splits, poucos strikes e erros nos fechamentos dos spares. Fica mais grave a situação se a análise focar na disputa de boliche como espetáculo televisivo, uma remota possibilidade de angariar patrocínios. Finais com atletas sem uniforme (o que não foi o caso desses eventos no Rio), platéia desinteressada e baixas pontuações não atraem o interesse até mesmo do praticante desse esporte, que dirá do público em geral.

Insistir nos condicionamentos difíceis, reduzir as altas médias dos participantes e não organizar esses eventos com mais critérios e logística, é como colocar olhos verdes em gente feia. Não serve pra nada.

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14 Respostas para “Pra que servem olhos verdes em gente feia?

  1. Bira, concordo com você em tudo, mas principalmente quando fala sobre o “laboratório” e a quantidade de jogadores que poderiam se beneficiar do treinamento no condicionamento definitivo.
    Penso que em todas as competições nacionais o condicionamento deveria ser “house shot”, assim haveria muito mais alegria e todos os voltariam para casa, muito mais felizes. Também ajudaria a trazer novos adeptos ao esporte.
    Eu pensava (dentro da minha ignorância) que dificultar o condicionamento elevaria o conhecimento e o nível técnico dos jogadores. Também achava que seria uma forma de separar o Joio do Trigo. Hoje me dou conta que estava redondamente equivocado.
    Hoje, acho que o que deveria mudar é a forma de ranking ou a forma de selecionar os jogadores. Ex: Para as seleções estaduais e nacionais o ranking só deveria ser usado para viabilizar ao atleta a possibilidade de jogar um ou vários seletivos para a formação da melhor seleção do momento. Não estou de acordo com um ranking que obrigue o jogador a participar de tantos eventos locais e fora de sua cidade só para ter a possibilidade de ser selecionado. É um gasto desnecessário, se o jogador colocar no papel o tanto de dinheiro que gasta para jogar taças e outros eventos e o destinar para treinamentos, seria um investimento e não um gasto. Muitos jogadores não podem viajar e/ou jogar tantos fins de semana e tantas vezes por ano, mas podem treinar.
    Acho que poderiam ser feito seletivos (dois ou três ao ano) com um número maior de partidas e com condicionamentos difíceis. Desta forma, selecionar os jogadores com melhor preparo, técnico, físico e psicológico. Principalmente para aquele que se acha em condições de defender uma seleção. E se por ventura ocorrer da classificação de um “bica reta” (bom pra ele), é sinal para aqueles que “se acham muito bons” tomarem consciência de que “não são tão bons assim”…
    Para dar oportunidades a todos poderiam ser organizados pré-seletivos para aqueles que não participam (por qualquer motivo que seja) dos eventos do calendário.

    • Considero muito sua concordância, Benê, nada a ver com ela em si mas, principalmente, porque tenho ciência há décadas do seu conhecimento técnico, tanto empírico quanto através de cursos e certificações internacionais.

      Acrescento aos campeonatos mais “festivos” o atrativo essencial de facilitar potenciais patrocínios e mídia esportiva (afinal, quem patrocinaria uma disputa arrastada, cheia de frustrações, sem vibração da torcida e envolvimento nulo dos coachs?).

      Quanto à seleção proponha uma solução mais radical: sou favorável que se faça a escolha de um técnico (ou comissão técnica) que convocaria os atletas por edital, tal qual ocorre no futebol, vôlei, tênis, basquete e outros esportes de maior visibilidade.

      Essa ditadura do ranking, exercida desde há muito tempo, acaba formando seleções de conveniência, algumas até Frankstein, as quais não consideram outros fatores importantes numa disputa, como dedicação, respeito, sociabilidade, vibração, companheirismo e condição técnica.

      Os convocados teriam apoio e treinamento planejado com antecedência. Sou pelo fim das seleções que se encontram no saguão do aeroporto, que criam situações bizarras nas quais um pede pra não formar dupla ou terceto com outro.

      Os campeonatos seriam as vitrines do nosso esporte, atraindo novos adeptos, filiados, patrocínio e mídia, não necessariamente nessa ordem.

  2. Bira e Benê, boa tarde.

    Concordo com quase tudo que foi dito acima. Eu também, a exemplo do Benê, defendi por um tempo os condiconamentos difíceis, achando que eles elevariam o nível dos jogadores brasileiros. Ledo engano, os que estão aptos a grandes resultados internacionais ainda são os mesmos, ou até mesmos nem os mesmos, menos ainda.

    Só não consigo achar seguro termos um técnico, que convoca por edital. Diferente do vôlei, basquete e futebol, nosso universo é muito reduzido, e qualquer escolha baseada em quesitos técnicos pode envolver outras nuances. Seria voltar 10 anos no tempo, quando a número 1 juvenil do Brasil ficou de fora de um Mundial Juvenil, pois a convocação era técnica e o técnico designado para tal afirmou que não a conhecia. Óbvio que tal fato se repetir seria quase impossivel, mesmo por que não temos juvenis femininas, rs, mas ficaríamos a mercê de uma convocação com base também em peferências pessoais. Como seria escolher os 2 jogadores masculinos para o PAN 2015? Digo, o segundo jogador? Acho a fórmula de eliminatória perfeita, pois com exceção de um ou outro jogador com mania de perseguição, ela não deixa dúvidas de quem são, no momento, os melhores para representar o páis.

    Mesmo 2 técnicos altamente gabaritados podem divergir em uma convocação, de acordo com seus métodos de trabalho.

    • Lucas. Já imaginei essa e outras situações como, por exemplo, envolvendo parentes & afins. O técnico da seleção de boliche deve ser tão “independente” da CBBOL quanto é hoje o técnico da seleção de futebol em relação à CBF. Ou seja, havendo injustiças óbvias ou contrariedades ao desenvolvimento e aperfeiçoamento do esporte, o presidente troca o técnico (ou a comissão). Caberia ao técnico (ou comissão) justificar à CBBOL seus critérios de escolha, o que não exclui o ranking dessas considerações, ou títulos nacionais, ou coisa que o valha. Até mesmo decidir que para eventos individuais (como o Pan) seja feita uma eliminatória.

      A principal justificativa da minha sugestão é que uma SELEÇÃO formada exclusivamente pelo ranking ignora condições essenciais para a formação de um TIME, que jogue coeso e na mesma sintonia.

  3. Vou comentar mais tarde… Só estou muito enrolado agora…Me aguardem… rsrs

  4. Bira e Lucas,

    Acho muito importante este tipo de debate e seria muito bom que outras pessoas também participassem.

    Um técnico de boliche com total autonomia para convocar, acho meio difícil… Até mesmo pelo formato de ranking utilizado. Sou sim a favor de autonomia para “desconvocar” por motivo disciplinar, falta de comprometimento, elemento desagregador, conduta antidesportiva, entre outras coisas negativas, bem comuns em muitos jogadores de boliche. Aliás, este tipo de comportamento não é privilégio dos bolicheiros brasileiros… É um mal que impera no boliche mundial.

    A formação de seleções permanentes foi criada justamente para ajudar o técnico. A convocação deveria ser por Seletivas e os melhores sempre estariam no time… Se o jogador continuará no time? Aí sim vai depender dos fatores citados acima. Esses fatores seriam analisados pelo técnico e ou comissão técnica.

    Meu trabalho com seleções mostrou que convocação a dedo não funciona, sempre tem alguém descontente e sempre haverá descontentamentos, pois como vocês sabem “todo jogador de boliche se acha na condição de estar numa seleção”, seja ela qual for… Do clube, do estado ou nacional.

    Sou a favor sim, da vaga técnica em alguns casos, e também de regras que permitam a participação de jogadores de alto nível que morem fora do país, nas Seletivas.

    Sou contra as seleções montadas por condições econômicas. Se não temos condição de mandar o que temos de melhor… Melhor não mandar ninguém, principalmente sem um técnico ou um dirigente. Que fique claro,.. Não quero com este comentário ofender ou menosprezar quem quer que seja.

    • Benê

      Também acredito que do debate nasce a solução mais adequada.

      A premissa que “todo jogador de boliche se acha na condição de estar numa seleção” é verdadeira até mesmo nas seleções formadas pelo ranking, porque sempre tem um ou outro que vai achar que estaria melhor ranqueado se pudesse viajar, ou foi prejudicado porque participou de um campeonato no qual o condicionamento, no entender dele, favoreceu o bica reta, etc, etc. Ou seja, sempre haverá descontentes, pois é uma condição inerente de qualquer “seleção”. Sempre haverá frustrados que se sentem injustiçados.

      Porém, não sou radical na defesa da minha tese, talvez um formato híbrido, como esse que você propõe, seja de aceitação mais fácil e produtiva.

      Quanto às seleções “econômicas”, penso diferente de você, pois quando não tiver condições de formação de seleções técnicas, a participação do país é importante de qualquer jeito. Se esses selecionados por questões financeiras não ganharem nas pistas, o ganho pela participação e presença do país é certo e vale a inscrição.

      Sem querer ser sacana, e já sendo, lembro que suas várias participações na Copa Mundial AMF não foram por conta dos seus títulos nas pistas ou por suas altas médias no ranking, mas sim por conveniência “econômica”. Mesmo assim acredito que todas suas participações foram válidas e justificadas, porque registrou o nome do seu Paraguai na história cinquentenária da Bowling World Cup para sempre. E isso não tem preço.

      Tenho muito orgulho de ter representado o Brasil como jogador na 41.ª Copa QubicaAMF e ter registrado o nome do meu país nesse grande evento. E o meu caso é menos nobre que o seu, porque sou um jogador mediano e um coach abaixo da crítica e sem formação profissional, o que não é seu caso, que construiu uma sólida e vitoriosa carreira de coach no boliche brasileiro e, também, no exterior.

  5. Bira, não esta sendo sacana, só esta equivocado. Apesar da nunca ter sido um jogador de ponta no Brasil, sim eu era o melhor jogador do Paraguay e infelizmente, se por acaso eu voltasse a jogar hoje… Ainda seria o melhor… Uma pena, mas é essa a realidade do boliche do meu país.

  6. Não tenho porque me orgulhar disso, e não saio por ai falando que eu fui isto ou aquilo. A final eu só era o cara que tinha um olho na terra de cegos… Por outro lado também fui o jogador que mais gastou dinheiro tentando aprender, tanto que acabei virando treinador. Talvez a historia esteja se repetindo também neste caso… E eu continue sendo o que tem um olho… rsrs
    .

    • Só fui em 2005 porque era amigo do rei, mas isso não afeta meu orgulho em representar o Brasil. Igual ao de muitos que representam de forma digna seus países, embora tenham um desempenho muito abaixo da média. Todo campeonato de qualquer esporte tem aqueles que ficam nas últimas posições, mas não creio que, por isso, devam ser desprezados ou ridicularizados. Os registros das suas participações em nome do Paraguai estão pra sempre na história. E isso vale muito.

  7. Bira, não tenho nada contra os jogadores que conformam as seleções de menor nível técnico que representam o país. Estamos falando do que sería melhor para o boliche. Sei que é um debate utópico. E a minha opnião é que não agrega nada ao esporte. Imagino sim, que sería muito mais proveitoso tanto para o jogador como para o boliche como esporte,se esses jogadores direcionassem essa verba gasta em uma dessas viagens para ir fazer um curso ou uma clínica no exterior. Ou até juntar-se e trazer um coach gringo para dar clínicas no Brasil.
    Você pode até dizer que talvez eles não tenham interesse em melhorar o seu jogo. Então eu direi: um jogador que pensa assim… Não merece vestir a camisa da seleção.
    Existe um movimento dentro da CSB para dar espaço a jogadores de menor nível técnico, em razão disso estão criando as competições para seleções de segunda força.

    • Benê.

      Estamos em sintonia, porque penso que a formação de seleções de segunda força seria apenas nos casos excepcionais de não ser possível enviar o melhor à disposição. Nessa situação, acredito que mesmo uma seleção mais fraca seria boa para o desenvolvimento e popularização do nosso esporte.

      Acredito que a maioria, pra não dizer todos, daqueles que participam de eventos internacionais volta com maior desejo de se aperfeiçoar, evoluir e treinar com metodologia e afinco.

      Pra você ter idéia, esse é o aspecto mais importante daquele projeto que estou elaborando, sobre Boliche como atividade extra-curricular nas escolas. É a inversão do processo tradicional de aprendizado, ou seja, entusiasmado apenas por ter participado o praticante se auto-estimula em aperfeiçoar a técnica do esporte boliche, para estar melhor preparado nas oportunidades seguintes.

  8. Fabricio Silva

    Voltei a jogar boliche a pouco tempo, tem muita pista para chegar a primeira divisão. Achei muito interessante o post publicado pelo Bira (que é muito gente boa por sinal), assim como os demais comentários.

    Talvez uma opinião de um praticante de boliche. Eu dividiria a discussão em 2 pontos: A) estratégia para novos adeptos, talvez com condicionamentos mais simples, com engajamento dos mais experientes dos clubes e auxiliar os iniciantes B) Nível de competição internacional e formação da seleção. Aqui certamente nossos técnicos tem a visão do que deve ser feito, o que discordo não é condicionamentos simples ou complexos, mas impedir o treinamento e principalmente a demora das definições dos condicionamentos dos campeonatos, o que impede os atletas de se preparem. Dizem que marés calmas não fazem bons marinheiros, mas também não se coloca ninguém numa situação para a qual ela não foi treinada. (trocadilho justificando espaço para treinar o oleo do campeonato)

    A respeito da seletiva, talvez um espaço não só por critério de pontos, mas espaço para algumas vagas baseada na média da média dos campeonatos participados em um período.

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